Ciência e Saúde

Como ajudar os filhos a criar uma relação mais leve com a comida na infância?

16 de outubro de 2026

Tania Abreu

Nutricionista formada pela UFRJ. Pós-graduada em Nutrição Clínica e Funcional; Fitoterapeuta e Nutrição Esportiva. CRN: 891002839-RJ

A hora das refeições pode ser um momento de convivência, descoberta e aprendizado. Mas, quando comer vira motivo de cobrança, briga ou negociação, esse momento pode ficar mais difícil para toda a família.

Para a nutricionista Tânia Abreu, uma das principais atitudes para construir uma relação mais leve com a comida é respeitar os sinais de fome e saciedade da criança.

Veja também: “Meu filho não quer comer”: quando a recusa alimentar merece atenção

É preciso obrigar a criança a raspar o prato?

Não é necessário. Segundo Tânia, os sinais de fome e saciedade devem ser respeitados. A quantidade que a criança come pode variar de uma refeição para outra e depende também de fatores como o que ela comeu anteriormente, sono e até irritação. “Às vezes o cuidador coloca uma quantidade de comida maior do que a criança suporta”, explica.

Por isso, em vez de determinar que a criança precisa terminar tudo o que está no prato, uma alternativa é oferecer porções adequadas e permitir que ela sinalize quando já está satisfeita.

Essa abordagem faz parte do que a literatura chama de alimentação responsiva, na qual o adulto oferece e organiza as refeições, mas também reconhece os sinais da criança. Estudos com crianças e famílias indicam que determinadas práticas de controle da alimentação podem estar relacionadas a comportamentos alimentares menos favoráveis. [1]

Veja também: Como fazer a criança comer bem? 5 princípios para estimular a alimentação saudável

E quando a resposta é “não quero”?

A recusa de um alimento não precisa se transformar em uma batalha. Tânia destaca que é importante ter paciência e evitar estratégias como obrigar a criança a comer tudo, deixá-la na mesa até terminar a refeição ou recorrer a brigas e chantagens.

Apresentar alimentos variados e permitir que a criança tenha contato com eles, sem pressão, ajuda a tornar a refeição uma experiência de aprendizado. Os pais também têm um papel importante pelo exemplo: crianças observam o que os adultos comem e como se relacionam com os alimentos. [2]

Isso não significa desistir diante da primeira recusa. Um alimento pode ser oferecido novamente em outros momentos e preparações, respeitando o ritmo da criança.

Sobremesa pode ser recompensa?

Para Tânia, não é uma boa estratégia transformar a sobremesa em prêmio. “A criança tem que comer os alimentos independente de comer ou não sobremesa. O comer não pode estar associado a nenhum tipo de suborno”, afirma.

Em vez de “coma tudo para ganhar a sobremesa”, a proposta é que os diferentes alimentos façam parte naturalmente da refeição, sem que um seja usado como moeda de troca pelo outro.

Revisões de estudos sobre práticas alimentares dos pais também analisam o uso de recompensas, pressão para comer e outras formas de controle, reforçando a importância de estratégias que favoreçam uma relação mais positiva com a alimentação. [2]

Menos cobrança pode gerar mais tranquilidade

Para Tânia, a hora da refeição deve ser um momento de calma e união. É também uma oportunidade para a criança aprender, experimentar novos sabores e desenvolver autonomia.

Por isso, comparações com outras crianças, brigas, ameaças, chantagens e recompensas devem ser evitadas. O adulto continua tendo um papel importante: organizar horários, oferecer alimentos variados e criar um ambiente adequado para as refeições. A criança, por sua vez, pode ter espaço para perceber o quanto quer comer.

Construir uma relação leve com a comida não significa deixar de oferecer uma alimentação variada ou estabelecer uma rotina. Significa ensinar a criança a comer sem transformar cada refeição em uma disputa.

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Referências científicas:

[1] Say A, Garcia XDP, Mallan KM. The correlation between different operationalisations of parental restrictive feeding practices and children’s eating behaviours: Systematic review and meta-analyses. Appetite. 2023;180:106320. Estudo que reuniu pesquisas envolvendo crianças de 2 a 12 anos.

[2] Yee AZH, Lwin MO, Ho SS. The influence of parental practices on child promotive and preventive food consumption behaviors: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity. 2017;14:47.

Artigo científico — Say et al., 2023 (PubMed)
Revisão científica — Yee, Lwin & Ho, 2017 (PubMed)