Ciência e Saúde

Diarreia em crianças: por que acontece tanto na idade escolar e como cuidar

7 de outubro de 2026

Giovana Diniz Mendes Melo Alves

Nutricionista Escolar e Materno-Infantil | Terapeuta ABA | CRN-4 098100372-9

Para quem tem filhos em idade escolar, é comum lidar de vez em quando com episódios de diarreia. Na maioria das vezes, o problema é passageiro e está relacionado a infecções gastrointestinais, principalmente virais. Mas isso não significa que o sintoma deva ser ignorado: a diarreia pode provocar perda de líquidos e nutrientes e, em alguns casos, levar à desidratação.

Segundo a nutricionista Giovana Diniz Melo, a combinação entre o sistema imunológico ainda em desenvolvimento e a intensa convivência entre crianças ajuda a explicar por que esses episódios são tão frequentes. Além disso, vírus, bactérias e parasitas podem ser transmitidos por mãos, alimentos, água e superfícies contaminadas.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que as doenças diarreicas são, em grande parte, preveníveis com medidas como higiene adequada das mãos, água segura, saneamento e cuidados com os alimentos. [1]

Veja também: O cocô ideal existe? O que o formato das fezes das crianças revela sobre a saúde intestinal

Por que a diarreia é tão comum entre crianças em idade escolar?

Escola é sinônimo de convivência: as crianças brincam juntas, compartilham objetos e passam bastante tempo em ambientes coletivos. Essa proximidade também facilita a circulação de microrganismos.

“Entre as principais causas podemos incluir as infecções por vírus, como rotavírus e norovírus, bactérias e parasitas, geralmente transmitidos por mãos ou alimentos contaminados”, explica Giovana.

A transmissão pode acontecer pela chamada via fecal-oral. Em termos simples, quando microrganismos presentes nas fezes de uma pessoa chegam à boca de outra, diretamente ou por meio das mãos, alimentos, brinquedos e superfícies contaminadas.

Outro ponto de atenção é o impacto que episódios repetidos ou mais intensos podem ter sobre a nutrição. A infecção intestinal pode prejudicar temporariamente a digestão e a absorção de nutrientes. Ao mesmo tempo, crianças com alimentação inadequada ou desnutrição podem apresentar maior vulnerabilidade a infecções, criando um ciclo que merece atenção. [2] [3]

Higiene: pequenos hábitos fazem diferença

Para ajudar a prevenir episódios de diarreia, alguns cuidados devem fazer parte da rotina da família:

  • Lavar as mãos com água e sabão depois de usar o banheiro e antes de preparar ou oferecer alimentos.
  • Ensinar a criança a lavar as mãos adequadamente, inclusive antes das refeições.
  • Manter brinquedos, superfícies e objetos de uso frequente limpos.
  • Usar água de fonte segura e armazená-la adequadamente.
  • Higienizar corretamente frutas, verduras e outros alimentos.
  • Cozinhar bem os alimentos e manter utensílios de cozinha limpos.
  • Evitar compartilhar alimentos e utensílios com pessoas que estejam doentes.

O álcool em gel pode ser útil em situações em que água e sabão não estão disponíveis, mas não deve substituir a lavagem das mãos quando ela for possível.

Também é importante que crianças com sintomas significativos de uma doença infecciosa não frequentem a escola. As orientações podem variar conforme a doença e a política da instituição, mas o CDC recomenda manter em casa crianças com diarreia que seja intensa, cause acidentes ou represente um aumento importante em relação ao padrão habitual. [4]

Saiba mais: Autocuidado infantil: como ensinar higiene, sono e bem-estar de forma lúdica

O que oferecer quando a criança está com diarreia?

De acordo com a nutricionista, a prioridade é evitar a desidratação. A principal recomendação para a reposição de líquidos e sais minerais perdidos é o soro de reidratação oral (SRO). Ele contém água, glicose e sais em uma proporção adequada para facilitar a absorção de líquidos pelo intestino. [1]

“Durante a diarreia, o manejo atual foca em uma reidratação rápida aliada à manutenção da alimentação normal, para acelerar a recuperação da mucosa intestinal e evitar a desnutrição”, explica Giovana.

Depois da reidratação, a recomendação é, em geral, não manter a criança em jejum. A alimentação habitual deve ser retomada e adaptada à aceitação da criança, com opções como arroz, batata, macarrão, carnes, frutas, vegetais e outros alimentos nutritivos. A manutenção da alimentação ajuda a reduzir o risco de perda nutricional. [1] [2]

E o que deve ser evitado?

Durante um episódio de diarreia, vale evitar principalmente:

  • refrigerantes;
  • bebidas esportivas;
  • bebidas muito açucaradas;
  • sucos industrializados com alta concentração de açúcar;
  • grandes quantidades de alimentos ou bebidas de uma só vez.

O excesso de açúcar pode aumentar a concentração de partículas no intestino e favorecer a passagem de água para dentro dele, piorando as fezes líquidas.

O mais importante, portanto, não é fazer uma dieta extremamente restritiva, mas manter a hidratação e oferecer alimentos nutritivos em quantidades que a criança consiga tolerar.

Probióticos: iogurte e leite fermentado podem ajudar?

Esse é um tema que costuma gerar dúvidas entre os pais. Probióticos são microrganismos vivos que, quando consumidos em quantidade adequada, podem trazer benefícios à saúde. Mas existe um detalhe importante: os efeitos dos probióticos são específicos de cada cepa. Ou seja, não é possível dizer que qualquer produto que contenha “bactérias boas” terá o mesmo efeito sobre a diarreia.

“Não basta consumir qualquer iogurte ou leite fermentado disponível no supermercado. A eficácia depende da cepa e da dosagem”, alerta Giovana.

Isso não significa que iogurtes e leites fermentados não possam fazer parte de uma alimentação equilibrada, como o Leite Fermentado Chamyto que contém lactobacilos vivos que contribuem para a manutenção de uma microbiota saudável, cálcio que é importante para a saúde dos ossos e, zinco, que é ajuda a fortalecer a imunidade.

Veja mais: Chamyto é probiótico?

A questão é que não se deve atribuir a um alimento fermentado comum o mesmo efeito terapêutico de uma preparação probiótica estudada clinicamente.

Quando houver indicação de probiótico durante um episódio de diarreia, a escolha do produto, da cepa e da dose deve ser feita com orientação do pediatra ou nutricionista. E é fundamental lembrar: probióticos são, quando indicados, um tratamento complementar, não substituem o soro de reidratação oral nem a alimentação adequada. [5]

Saiba mais: Leite fermentado ajuda a regular o intestino?

Quando a diarreia exige avaliação médica?

Na maioria dos casos, a diarreia aguda melhora espontaneamente. Ainda assim, os pais precisam ficar atentos aos sinais de alerta. Um dos principais riscos é a desidratação. Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • Diminuição importante da quantidade de urina;
  • Boca e mucosas muito secas;
  • Ausência ou redução das lágrimas ao chorar;
  • Olhos fundos;
  • Sonolência ou alteração do nível de alerta;
  • Fraqueza ou prostração.

A presença de sangue nas fezes também exige avaliação médica. A OMS recomenda procurar atendimento profissional quando há sangue nas fezes, sinais de desidratação ou diarreia persistente. [1]

Outros sinais de atenção incluem febre alta, dor abdominal forte ou persistente, vômitos repetidos, especialmente quando impedem a criança de beber líquidos, e piora ou ausência de melhora do quadro.

“Episódios graves ou negligenciados podem causar alterações na mucosa intestinal e prejudicar a absorção de nutrientes. Por isso, ao menor sinal de alerta, a avaliação do pediatra é indispensável”, reforça Giovana.

Fontes:

  1. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Diarrhoeal disease. Geneva: WHO, 2024. (Organização Mundial da Saúde)
  2. GUT HEALTH CONSORTIUM; DUTT, S.; BHATTACHARYA, A.; et al. Expert recommendations on feeding practices of milk diets in acute infant diarrhea in India: a collaborative position statement. Medical Research Archives, v. 12, n. 9, 2024. DOI: 10.18103/mra.v12i9.5677. (European Society of Medicine –)
  3. PALMER, A. C.; BEDSAUL-FRYER, J. R.; STEPHENSEN, C. B. Interactions of Nutrition and Infection: The Role of Micronutrient Deficiencies in the Immune Response to Pathogens and Implications for Child Health. Annual Review of Nutrition, v. 44, p. 99–124, 2024. DOI: 10.1146/annurev-nutr-062122-014910. (Annual Reviews)
  4. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). When Students or Staff Are Sick. Atlanta: CDC, 2026. (CDC)