Quando falamos em desenvolvimento infantil, é comum pensar em crescimento, alimentação, sono, aprendizado e imunidade como assuntos separados. Mas existe uma conexão importante entre todos eles: o intestino.
Mais do que o órgão responsável pela digestão, o intestino participa da absorção de nutrientes e mantém uma relação próxima com o sistema imunológico. Ele também abriga a microbiota intestinal, formada por trilhões de microrganismos que interagem com o organismo e ajudam a manter o equilíbrio do ambiente intestinal.
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“É importante entender que o trato gastrointestinal infantil vai muito além da simples digestão de alimentos: ele atua como uma barreira protetora, participa da regulação imunológica e é fundamental para a absorção de nutrientes necessários ao desenvolvimento físico”, explica a nutricionista Giovana Diniz Melo.
Isso não significa, porém, que exista uma relação simples de causa e efeito entre “intestino saudável” e desenvolvimento infantil. A ciência mostra uma conexão importante entre nutrição, intestino, imunidade e crescimento, mas ainda há perguntas em aberto, especialmente sobre a influência direta da microbiota sobre aspectos como cognição e comportamento.
Por que o intestino é tão importante para o crescimento?
Para crescer, brincar, aprender e se desenvolver, a criança precisa receber energia, proteínas, vitaminas e minerais em quantidade adequada. O intestino é responsável por absorver boa parte desses nutrientes.
Quando ocorre uma infecção gastrointestinal, como uma gastroenterite com diarreia, a situação pode mudar. A inflamação e as alterações na mucosa intestinal podem prejudicar temporariamente a digestão e a absorção dos nutrientes. Se episódios importantes ou recorrentes forem acompanhados de ingestão alimentar insuficiente, podem contribuir para a perda de peso e, em situações prolongadas, comprometer o crescimento. [1][2]
Por isso, um dos cuidados importantes durante uma indisposição gastrointestinal é evitar o chamado “repouso digestivo” ou jejum prolongado. Depois que a criança estiver adequadamente hidratada e de acordo com sua tolerância, a alimentação deve ser retomada. A própria OMS orienta que, durante doenças, a criança receba mais líquidos e continue sendo estimulada a comer alimentos macios e que aceite bem; depois da recuperação, a oferta de alimentos pode ser aumentada. [3]
“Restringir a alimentação por muito tempo pode dificultar a recuperação nutricional. A realimentação adequada ajuda a fornecer energia e nutrientes para a recuperação do organismo”, explica Giovana.
E onde entra a microbiota intestinal?
A microbiota intestinal é o conjunto de microrganismos que vivem no intestino. Ela começa a se formar desde os primeiros momentos da vida e passa por mudanças importantes durante a infância.
Esses microrganismos participam de diversas funções, incluindo a interação com o sistema imunológico e a produção de substâncias resultantes da fermentação de componentes da alimentação.
A relação entre microbiota e cérebro também é objeto de muitas pesquisas. É daí que vem a expressão “eixo intestino-cérebro”, usada para descrever a comunicação entre o sistema gastrointestinal e o sistema nervoso.
Mas é importante colocar as descobertas científicas em perspectiva: embora existam evidências de uma comunicação entre intestino, microbiota, sistema imunológico e sistema nervoso, ainda não é possível afirmar que determinadas bactérias intestinais, isoladamente, sejam responsáveis por melhorar inteligência, memória ou desempenho escolar.
“Os estudos mostram uma conexão importante entre o equilíbrio intestinal, a imunidade e a disponibilidade de nutrientes necessários ao desenvolvimento. Já os mecanismos diretos pelos quais a microbiota poderia influenciar a cognição ainda precisam ser mais bem esclarecidos”, pondera Giovana.
Alimentação rica em nutrientes ajuda a construir uma microbiota saudável
A alimentação é um dos fatores que influenciam a composição e o funcionamento da microbiota. Na primeira fase da vida, o leite materno tem papel importante. Ele fornece nutrientes e componentes bioativos, incluindo os oligossacarídeos do leite humano (HMOs), que não são digeridos pelo bebê e podem ser utilizados por determinadas bactérias benéficas do intestino. O aleitamento materno também fornece fatores de proteção que contribuem para a saúde do bebê. [4]
A OMS recomenda o aleitamento materno exclusivo até os seis meses e, depois disso, a introdução de alimentos complementares adequados, mantendo o aleitamento até dois anos ou mais, quando possível. [4]
À medida que a criança cresce, a diversidade alimentar ganha importância. Frutas, verduras, legumes, feijões, cereais, ovos, carnes e outros alimentos in natura ou minimamente processados fornecem diferentes nutrientes e componentes que podem ser utilizados pelo organismo e pela microbiota.
Iogurte e leite fermentado podem fazer parte dessa alimentação?
De acordo com a nutricionista, alimentos fermentados, como alguns iogurtes e leites fermentados, podem fazer parte de uma alimentação equilibrada e contribuir para a ingestão de nutrientes. Alguns produtos também contêm lactobacilos vivos importantes para a manutenção da microbiota intestinal, como o Leite Fermentado Chamyto e o Iogurte Chamyto. Além disso, ambos produtos contam com a presença de nutrientes como Zinco, que auxilia no fortalecimento da imunidade, e o Cálcio, que contribui com o crescimento dos ossos e dentes infantis.
Mas, segundo Giovana, existe uma diferença importante entre alimento fermentado e probiótico com efeito clínico comprovado. Para ser considerado probiótico, o microrganismo precisa ser administrado em quantidade adequada e demonstrar benefício à saúde. Além disso, os efeitos são específicos da cepa utilizada. Portanto, não se pode afirmar que qualquer iogurte ou leite fermentado terá o mesmo efeito de um probiótico estudado em ensaios clínicos. [5]
A Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica (ESPGHAN) ressalta justamente que os benefícios dos probióticos dependem da cepa, da dose e da situação clínica. Para algumas condições gastrointestinais infantis existem evidências favoráveis para cepas específicas, enquanto para outras as evidências ainda são insuficientes. [5]
Na prática, o leite fermentado e o iogurte podem ser uma opção interessante dentro de uma alimentação variada para crianças, tornando o lanche escolar mais prático e nutritivo e opções ideais para levar em passeios externos.
O que colocar no prato para cuidar do intestino das crianças?
Não existe um alimento milagroso para a microbiota intestinal. O melhor caminho é oferecer variedade em refeições equilibradas. Por exemplo:
- Arroz ou outro cereal;
- Feijão ou outra leguminosa;
- Legumes e verduras;
- Frutas ao longo do dia;
- Ovos, carnes, peixes ou outras fontes de proteína;
- leite e derivados, quando adequados à idade e à alimentação da criança.
A diversidade da dieta é importante porque diferentes alimentos fornecem diferentes fibras, vitaminas, minerais e outros componentes que participam da saúde intestinal.
A OMS destaca que uma alimentação diversificada é importante para atender às necessidades nutricionais e que a falta de variedade pode aumentar o risco de deficiências de micronutrientes, com consequências para o desenvolvimento físico e cognitivo. [6]
Referências bibliográficas
- DUTT, S. et al. Nutritional management of acute infant diarrhea: recomendações e revisão sobre alimentação, integridade intestinal e recuperação nutricional. 2024.
- KING, C. K. et al. Managing acute gastroenteritis among children: oral rehydration, maintenance, and nutritional therapy. MMWR Recommendations and Reports, v. 52, n. RR-16, 2003. Disponível em: CDC — Managing Acute Gastroenteritis Among Children
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Infant and young child feeding: model chapter for textbooks for medical students and allied health professionals. Geneva: WHO. As orientações incluem a continuidade da alimentação durante doenças e o aumento da oferta alimentar após a recuperação. (Iris)
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Infant and young child feeding. Geneva: WHO. Recomenda aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses, seguido da introdução de alimentos complementares adequados e continuidade do aleitamento até dois anos ou mais. (Organização Mundial da Saúde)
- SZAJEWSKA, H. et al. Probiotics for the Management of Pediatric Gastrointestinal Disorders: Position Paper of the ESPGHAN Special Interest Group on Gut Microbiota and Modifications. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, v. 76, p. 232–247, 2023. A publicação ressalta que os efeitos dos probióticos são específicos de cepa e que as evidências variam conforme a condição clínica. (ESPGHAN)
- WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Child feeding: minimum dietary diversity, 6–23 months. Geneva: WHO. A diversidade alimentar é recomendada para atender às necessidades nutricionais e está associada a melhores indicadores de crescimento. (Organização Mundial da Saúde)